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Fundação |
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Um capítulo importante da história
do Brasil refere-se à emigração européia na segunda metade do século XIX. São tempos
do fim da escravidão e da grande produção de café. Suíços, alemães, italianos e
espanhóis formam a força de trabalho, bem nas fazendas cafeeiras paulistas, bem
nos diversos empregos nas grandes cidades como Rio de Janeiro, São Paulo e Salvador.
Todos conhecem os problemas que a
emigração européia causa, tanto no Brasil como nas nações da Europa. O tratamento
recebido pelos colonos alemães e, em geral, por todos os emigrantes europeus, obrigou
os Governos, primeiro o da Prússia, que no ano de 1859 proibira a emigração para
o Brasil e, depois, outros países seguiram o exemplo.
No ano 1865, uma “Real
Orden” tomava medidas referentes à emigração dos espanhóis para o Brasil. Nela
se faz referência “aos tratados que recebem no Brasil os espanhóis”. De agosto de
Isto não obstante, entre 1885 e 1911,
o porto de Santos recebia perto de 200.000 espanhóis. A situação desta população
de emigrantes não era muito satisfatória. A miséria rondava muitas das “casas” dos
emigrantes. Os salários não foram os salários prometidos na contratação. Os espanhóis,
todavia, encontraram uma maneira de solucionar o estado, quase miserável, em que
grande parte de outros emigrantes, se encontrava. Fora do trabalho nas fazendas
cafeeiras de São Paulo, os espanhóis procuraram campos de trabalho nos bares e restaurantes,
na construção, onde alguns encontravam a maneira de se livrarem dos contratistas.
Talvez, a colônia de emigrantes espanhóis
melhor situada fosse a comunidade de Salvador, na Bahia. A maioria dos espanhóis
estava dedicada ao comércio. E, o mais importante, em Salvador, os espanhóis fundaram
uma Sociedade que procurava ajudar aos conterrâneos nas doenças ou nos casos de
pobreza. E o que era mais interessante, os próprios patrões procuraram seus trabalhadores
que estivessem associados à entidade.
Minas Gerais é uma das regiões que
contam com menos emigrantes espanhóis. Os documentos da administração espanhola
que nos falam de emigrantes no Brasil, mencionam regiões como Rio de Janeiro, São
Paulo, Bahia, Recife e até Rio Grande do Sul, mas nada falam em relação ao Estado
de Minas. Todavia, sabemos que, durante o período colonial, por estas terras andaram
espanhóis. As lembranças religiosas esparsas pelo Estado nos manifestam sua presença.
Cidades como Vila Rica, Mariana, São João del Rei, Nova Lima e Pitangui, entre outras,
tem como Padroeira de suas igrejas a Virgem do Pilar. A Sé de Mariana tem uma presença
muito mais marcante. Sua Padroeira é Nossa Senhora da Assunção, como o é, também,
de quase todas as catedrais espanholas.
No fim do século passado, a construção
da nova capital de Minas Gerais, Belo Horizonte, proporcionou a oportunidade para
que aqui chegasse um grupo de emigrantes da Espanha. Os trabalhos da construção
exigiram conhecedores do trabalho da pedra e da madeira. Pedreiros e marceneiros
eram os operários mais valorizados. De São Paulo e, principalmente, da Bahia foram
chegando emigrantes espanhóis à Nova Capital. Na Bahia, a colônia espanhola é fundamentalmente
galega e os galegos são mestres no tratamento da pedra e mestres na marcenaria.
As grandes pedreiras dos arredores da futura capital ainda lembram a passagem dos
grandes canteiros galegos. As pedras de lá extraídas foram ornamentar casas, igrejas
e palácios de Belo Horizonte. Algumas dessas pedreiras, hoje transformadas em grandes
favelas, têm nomes bem espanhóis, como a “Pedreira Prado Lopes”, outras já perderam
os nomes, como a dos irmãos Muradas.
À Bahia muitos chegaram a chamado
de seus familiares que viviam na capital baiana. Buscando aventuras, buscando sucesso
na vida, aportaram alguns deles a Belo Horizonte e, assim como se criou a Sociedade
Espanhola em Salvador, assim foi criado
É bem verdade que a maior parte dos
que aqui chegaram eram das mansas terras da Galícia. Talvez por isso, porque eram
galegos, a “morriña” apertara mais forte. Talvez por isso a idéia fosse crescendo,
aos poucos, mas com força, até se transformar numa bela realidade.
Os espanhóis chegaram, vindos de aldeias,
paróquias e cidades. Poucos com grande cabedal de letras ou títulos escolares. Chegaram,
sim, com as mãos calejadas, acostumados ao trabalho duro da “terrinha” e, por esse
motivo, dispostos a triunfar custasse o que custasse. Trabalhar foi sua norma de
vida e a dignidade, sua lei. Todos eles poderiam recordar nas suas cartas à família,
à namorada que lá ficara.
Nossos patrícios que aqui chegaram
por aqueles anos de 1900. Eis a característica daqueles homens, que lançaram os
alicerces do Grêmio Espanhol.
Já em fevereiro de 1911, exatamente
no dia 5, assinara alguns espanhóis um livro contribuindo para alugar cadeiras,
pagar aluguel de uma sala para se reunirem. Era um imperativo a fundação de uma
sociedade que agrupasse os espanhóis aqui residentes. Assim surgirá o Grêmio Espanhol
de Socorros Mútuos e Instrução, não no dia 26 de fevereiro como consta nos estatutos
de 1940, mas no dia 11 de fevereiro como consta no livro de Atas de 1929 e 1933.
O que importava naqueles momentos,
pelo que se refere à criação da nossa entidade, era reunir o grupo de espanhóis
residentes
E como era bom voltar a ouvir a língua
materna, misturando galego e português, ou castelhano e português, nesse saboroso
“portunhol”!
E como era saudável matar a “morriña”
da terra longínqua no comentário das cartas que após longas, demorada viagem, chegavam
da aldeia, da paróquia da cidade grande!...
Sentados em redor de uma mesa, aqueles
homens, muitos de aldeias vizinhas, e até, muitas vezes, da mesma aldeia, passavam
horas e horas comentando as notícias que de lá chegavam, relembrando a casa, os
amigos, a família, o correr do riacho onde abundavam as “truchas” ou os salmões...
Tudo aquilo que ficara na Espanha e a cada dia voltava à lembrança saudosa dos que
algum dia esperavam retornar e ver novamente.
Nas conversas, surgidas ao calor das
recordações, aflorou a idéia da fundação do Grêmio, que deveria ser uma casa, uma
prolongação da casa da aldeia, onde todos, como se estivessem sentados numa noite
infindável do inverno, ao lado da lareira, pudessem ajudar-se mutuamente no trabalho
e na luta, na alegria e na doença. Onde até pudesse ser transmitido aos brasileiros
o sentido e a beleza da cultura da pátria, onde seus futuros ou atuais filhos, pudessem
sentir algo do calor, do amor, da grandeza da pátria onde nasceram.
E foi, exatamente, o infortúnio de
um patrício que aumentara a vontade de criar a sociedade. Nunca voltaria a acontecer
a nenhum espanhol ter de depender da caridade pública. Diante da morte de um patrício,
na mais completa solidão e abandono, aqueles homens juraram não descansar até ver
em pé seu sonho. Um sonho que, transformado em realidade, teria fundamental importância
para poder socorrer os espanhóis necessitados a repartir cultura e instrução aos
seus associados e familiares. Por isso se chamaria Grêmio Espanhol de Socorros Mútuos
e Instrução. Posteriormente, muitas vezes tentaram mudar o nome. A palavra Grêmio
não lhes parecia adequada para seus objetivos. Assemelhava-se, de alguma maneira,
aos Grêmios Medievais ou associações políticas. Nunca foi aprovada a medida. Continuou
sendo Grêmio Espanhol.
E aqueles homens, que tanto lembraram
seu passado, nos deixaram, não só um edifício material, construído pedra a pedra,
tijolo a tijolo, nas horas que poderiam dedicar ao seu merecido descanso e lazer.
Nos transmitiram o orgulho, que hoje podemos sentir ao penetrar nos velhos prédios
da Avenida Olegário Maciel: o orgulho de sermos espanhóis.
E não é só ao penetrar na Sede Social
da Olegário Maciel ou na Sede Campestre da Xangri-lá. Ao caminhar pelas ruas de
Belo Horizonte, mesmo hoje, desfiguradas de sua realidade primitiva, encontramos
os sinais da passagem do homem da Espanha aflorar na mente.
Como causava verdadeiro arrepio na
carne e o ferver do sangue, ao ouvir falar, com aquele entusiasmo, com aquele espanholismo,
aquela velha senhora que se chamara Dona Olímpia, perante a qual se renderam os
homens de maior prestígio social e político de Belo Horizonte, ao transpor a porta
do famoso “Montanhês”. Viam-se brilhar aqueles olhos penetrantes, olhos daquela
mulher, já esgotada pela luta e pela idade, ao falar de Espanha, de sua terra natal...
e se esquecia, naqueles momentos, da quase pobreza em que passara seus últimos dias.
Assim eram também aqueles homens que
sonharam dignificar a pátria em que nasceram trabalhando na pátria que os adotara.
É que a alma espanhola sempre soube ser grata, melhor, agradecida; soube devolver
com largueza o pouco ou muito que recebera.
Ao lembrar este passado e viver o
presente, cabe sempre uma lembrança. Nada de desmerecer ninguém, mas podemos repetir
que “Ser espanhol é uma das poucas coisas sérias que se podem ser neste mundo”.
E é verdade. Por isso temos de sempre
manifestar, bem alto e bem claro, nossa qualidade de espanhóis.
Aqui no Grêmio, pairando pelo ar,
escrito nas paredes com caracteres indeléveis, está o exemplo que sempre deveríamos
seguir. Foram os nossos antepassados, de ontem e de sempre; aqueles que ficaram
apenas na lembrança e outros cujo calor ainda sentimos.
Este é o espírito da fundação do Grêmio. Este é o espírito que, como mensagem, desejamos se transmita a todos aqueles que leiam estas palavras e contemplem as fotografias que acompanham esta história. |